Namorados: Assine Digital Completo por 5,99

O que explica o aumento de casos de suicídio e autolesões no Brasil

Estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) aponta elevação dos indicadores, principalmente entre jovens e adolescentes. Investigamos fatores por trás disso

Por Lucas Rocha 11 mar 2024, 17h00
suicidio-setembro-amarelo
Setembro Amarelo demarca conscientização e engajamento da sociedade contra o suicídio (Ilustração: Veja Saúde/SAÚDE é Vital)
Continua após publicidade

Um estudo conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revela um aumento de 6% ao ano na taxa de suicídio entre jovens no Brasil de 2011 a 2022. No mesmo período, os registros de autolesões de crianças e jovens adultos de 10 a 24 anos cresceram 29% a cada ano.

Preocupantes, os dados desse público superam os indicadores da população em geral, que apresentou uma elevação média de 3,7% ao ano de casos de indivíduos que tiraram a própria vida e de 21% ao ano para os episódios de violência autoprovocada.

Para chegar aos resultados, especialistas do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), em colaboração a Escola de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos, analisaram três bases de dados: o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), o Sistema de Informações Hospitalares (SIH) e de Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).

A psicóloga e doutora em saúde pública Flávia Jôse Alves, pesquisadora da Fiocruz Bahia e líder do estudo, destaca que o trabalho é um primeiro passo importante rumo a políticas efetivas de controle desses problemas. “Uma das principais ferramentas para a prevenção é entender o que está acontecendo. Para isso, é preciso ter dados de qualidade“, relata.

Os resultados foram publicados no periódico científico The Lancet Regional Health – Americas.

+ Leia também: O que dizer e o não dizer para alguém em risco de suicídio

Causas multifatoriais

O trabalho em questão não se debruçou sobre as causas dos resultados encontrados. Mas o suicídio geralmente é atribuído a um conjunto de fatores que conduzem a um sofrimento psíquico profundo.

Continua após a publicidade

Entre os mais significativos estão: história de suicídio na família, tentativas prévias e o acesso a meios de alta letalidade, como armas de fogo e substâncias tóxicas. Também contribuem como gatilhos as experiências potencialmente traumáticas, a exemplo de mortes de pessoas queridas, diagnóstico de doenças graves, divórcio, violência doméstica, desemprego e crise financeira.

Vale destacar que a ação de tirar a própria vida é considerada um desfecho de uma situação crítica que em geral envolve tentativas anteriores. Pesam ainda sobre o problema os transtornos mentais, sendo a depressão o mais relevante.

“E não podemos nos esquecer que tivemos uma pandemia de Covid-19 há pouco tempo, com um impacto importante na saúde mental, principalmente de jovens”, destaca a psicóloga Karen Scavacini, da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (Abeps).

Suicídio na adolescência

Os adolescentes realmente despertam uma atenção redobrada, porque sofrem especialmente com questões como a comparação com pessoas da mesma idade, as dificuldades em lidar com frustrações, o bullying e os mais diversos tipos de pressões sociais.

“Os jovens têm questões sociais de pertencimento, adequação e convivência que são fundamentais para eles e que têm muito mais impacto do que na comparação com um adulto”, reforça a especialista.

Continua após a publicidade

O psicólogo Maycon Torres, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), dá exemplos de situações que fazem esse público sofrer mais do que a média. “A separação dos pais, especialmente em processos complicados; problemas institucionais na escola, aumento de tempo de tela e o excesso de uso das redes sociais”, enumera.

saude-mental-depressao-ansiedade-mente-saudavel-terapia-psicologia
Ampliar o acesso aos serviços de saúde mental é visto como fator essencial para reverter o crescimento de casos de suicídio (Foto: Drazen Zigic/Freepik/Divulgação)

Busca de alívio da dor psíquica

A prática de autolesão (também chamado de automutilação no passado) faz parte de um conjunto de comportamentos denominados pelos especialistas de violência autoprovocada.

Cortes, arranhões, queimaduras, socos, tapas, mordidas e até mesmo o ato de se jogar contra objetos são exemplos de autolesão. “A intenção, na maioria das vezes, não é a morte, e sim o alívio de uma dor psíquica muito grande. A autolesão se difere do comportamento suicida basicamente pela intencionalidade“, afirma Karen. “Há jovens que começam a se autolesionar por curiosidade ou na busca de pertencimento e acabam usando isso para lidar com as suas dores”, afirma Karen.

Alguns contextos favorecem atitudes de violência autoprovocada:

Continua após a publicidade
  • Bullying ou cyberbullying
  • Abuso físico ou sexual
  • Conflitos familiares
  • Transtornos mentais
  • Consumo excessivo de álcool ou drogas
  • Vulnerabilidade social
  • Dificuldades em lidar com o próprio corpo ou sexualidade

Ainda nesse cenário, as redes sociais apresentam um risco em potencial devido à presença de grupos que estimulam não apenas a autolesão e o comportamento suicida, como também transtornos alimentares, discursos de ódio e intolerância.

“É uma ideia que os estudiosos chamam de contágio social: a tentativa de suicídio de uma pessoa alimenta outras tentativas e isso vai, de certa forma, se alastrando. Ou seja, os adolescentes podem replicar um tipo de comportamento encontrado nas redes sociais”, explica Torres.

Em 2019, a Lei 13.819 determinou a notificação compulsória pelos serviços de saúde de casos de violência autoprovocada. A psicóloga Karen Scavacini, que também é do Instituto Vita Alere, avalia que o aumento brusco desse tipo de violência também pode ser explicado, em parte, pela mudança na legislação, que levou a uma identificação mais precisa do problema.

+ Leia também: Depois do suicídio: o que fazer por aqueles que ficam

Continua após a publicidade

Os dados brasileiros, em detalhes

A cada ano, mais de 700 mil pessoas tiram a própria vida no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). O suicídio é considerado a quarta principal causa de mortes entre pessoas de 15 a 29 anos.

No Brasil, ocupa a segunda posição no ranking de óbitos entre adolescentes de 15 a 19 anos e a quarta na faixa etária de 20 a 29 anos. Os indicadores brasileiros mais recentes, divulgados pelo Ministério da Saúde em fevereiro, são referentes ao período de 2010 a 2021.

“O aumento do suicídio e da autolesão é um retrato escancarado de que tem algo complicado acontecendo com a nossa sociedade. Nesse contexto, estão problemas nos vínculos, nas relações – sejam elas entre amigos, familiares ou da própria sociedade – e na esperança com o futuro”, pontua Karen.

Em 2021, foram registrados mais de 15,5 mil suicídios, o equivalente a uma morte a cada 34 minutos. Quase 78% dos casos ocorreram entre homens. No mesmo ano, o problema representou a 27ª causa de morte no país, principalmente entre adolescentes e adultos jovens.

“As meninas acabam sendo mais abertas a receber ajuda. Mas ainda não é aceito em muitos locais que meninos demonstrem sentimentos ou vulnerabilidade, principalmente na escola”, frisa Karen. Segundo ela, precisamos falar mais sobre isso também com eles.

Continua após a publicidade

Os dados revelam ainda uma elevada carga de suicídios entre indígenas em relação a outros grupos. O fenômeno já havia sido destacado em estudos anteriores, que indicam que a taxa entre essa população é aproximadamente três vezes maior do que a geral.

Entre os fatores críticos para esse grupo estão o consumo abusivo de álcool e drogas, mudanças socioculturais no contato com a sociedade não indígena, abandono de tradições e fragilização cultural, enfraquecimento de laços familiares e comunitários, e falta de acesso
à educação e ao trabalho.

De acordo com o boletim do ministério, mais de 114 mil casos de violência autoprovocada foram notificados no Sistema de Informações de Agravos de Notificação (Sinan) em 2021.

Cerca de 70% das autolesões ocorreram entre mulheres, com um predomínio geral na faixa de 20 a 49 anos (60,2%). No sexo feminino, os maiores percentuais foram em crianças e adolescentes de 5 a 14 (11,5%) e de 15 a 19 (23,2%), em comparação ao masculino, que foram de 4,1% e 17,5%, respectivamente.

O documento destaca ainda que 4% dos casos foram registrados entre indivíduos homo ou bissexuais, e 1,5% como travestis ou transexuais, com um total de 4,8% de indivíduos classificados como LGBTQIA+.

Fatores como estigmatização, preconceito e discriminação, por vezes exacerbados pela rejeição familiar, exclusão no ambiente de trabalho e pela violência física e verbal, contribuem para o desenvolvimento de problemas de saúde mental entre essa população e para um risco elevado de comportamentos suicidas.

Caminhos para reverter o quadro

A prevenção do suicídio envolve uma abordagem de diversos contextos da sociedade, incluindo família, escola, trabalho, gestores e formuladores de políticas públicas em saúde.

“Especialmente no que diz respeito à infância e adolescência, o pilar importante envolve a escola, mas ela precisa estar articulada com a família, com a comunidade e com os serviços de saúde”, diz Torres.

A psicóloga Karen Scavacini avalia como essencial a expansão da rede de atenção psicossocial, buscando garantir o acesso mais amplo aos serviços de saúde mental no país. Nesse contexto, ela idealizou o Mapa da Saúde Mental, projeto que permite a consulta de serviços de atendimento psicológico gratuito, voluntário ou com preços acessíveis no Brasil.

“Temos que falar de uso seguro da internet e em como melhorar a relação com a tecnologia e as redes sociais. As famílias precisam ser orientadas para lidar com toda essa problemática. Temos um caminho longo pela frente”, conclui Karen.

[abril-veja-tambem]W3siaWQiOjEwODM4OSwidGl0bGUiOiJEaXNsZXhpYSBvdSBUREFIOiBlbnRlbmRhIGFzIHNlbWVsaGFuJiN4RTc7YXMgZSBkaWZlcmVuJiN4RTc7YXMgZW50cmUgb3MgdHJhbnN0b3Jub3MifSx7ImlkIjoxMDc3MTYsInRpdGxlIjoiRXN0cmVzc2UgcCYjeEYzO3MtdHJhdW0mI3hFMTt0aWNvOiBvIHF1ZSAmI3hFOTsgbyBwcm9ibGVtYSBlIGNvbW8gbGlkYXIgY29tIGdhdGlsaG9zIn0seyJpZCI6MTA3Mzg4LCJ0aXRsZSI6IlBvciBxdWUgbGVyIGZheiBiZW0gJiN4RTA7IHNhJiN4RkE7ZGU/In1d[/abril-veja-tambem]

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

ECONOMIZE ATÉ 65% OFF

Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*
Apenas 5,99/mês*

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$71,88, equivalente a R$ 5,99/mês.