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Meninos não choram? Quando o sofrimento vira violência nas escolas

Pesquisadora analisa impacto de desafios psíquicos e sociais entre os jovens na origem de ataques a outras pessoas e instituições

Por Ilana Pinsky, psicóloga* 18 Maio 2023, 18h32
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Maioria dos jovens que realizam ataques em escolas apresenta problemas psicossociais.  (Ilustração: Cássia Roriz/SAÚDE é Vital)
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O recente ataque e assassinato de crianças em uma creche em Santa Catarina, a morte de uma professora em um colégio de São Paulo e uma série de ameaças a escolas disseminadas pelas redes sociais desafiam nossa capacidade de compreensão devido aos vários níveis de horror que representam.

A tentativa de entender como algo assim pode acontecer engloba múltiplos elementos que constituem e impactam a sociedade.

Eles incluem discursos e práticas violentas, instabilidade econômica, famílias disfuncionais e fenômenos como o copycat — a repetição de episódios violentos como desejo dos agressores de atenção das mídias.

Tudo isso pode contribuir para uma tempestade perfeita e devastadora.

Infelizmente, casos do gênero se repetem em diversos países. E há estudos analisando o perfil das pessoas com maior probabilidade de se envolver nessas situações.

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Uma das constatações bem claras é que quase sempre os agressores são homens, particularmente jovens.

O centro de pesquisa The Violence Project, que mantém um banco de dados sobre os massacres à bala ocorridos nos Estados Unidos nos últimos 50 anos, constatou que 97% deles foram realizados por homens e mais de metade desses indivíduos tinha até 34 anos.

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Esses agressores estão, na maioria das vezes, passando por crises pessoais.

Por momentos difíceis como perda do emprego, separação, morte dos pais, rejeição… E que fogem da sua capacidade de lidar com eles.

Frequentemente, os ataques são antecipados e sinalizados por mudanças de comportamento: extremo isolamento em alguns casos, aumento na agressividade no dia a dia em outros.

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Grande parte desses homens apresentava atitudes e comportamentos crescentemente impulsivos, às vezes até suicidas. E, não raro, chegam a divulgar seus planos de violência tanto para indivíduos próximos como por meio das redes sociais.

O mais recente ataque ocorrido nos Estados Unidos, que deixou quatro pessoas mortas em um banco na Louisiana, chegou a ser transmitido ao vivo pelo assassino.

De fato, alguns estudos apontam que a vida real e a que ocorre nas mídias sociais desses sujeitos não são mutuamente exclusivas, mas tendem a conter os mesmos temas e sinais de alerta.

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Pesquisas também revelam que o compartilhamento de assuntos e mensagens violentas nas redes tende a impactar as ações de pessoas já sob o risco de agirem com agressividade através da normalização de atitudes e ações que, em geral, antes eram vistas por elas como inaceitáveis.

É o que chamamos de contágio social, moldado à era da internet.

Uma quantidade expressiva de indivíduos envolvidos nessas situações de violência de massa (mais precisamente, cerca de 30% deles) está deprimida ou enfrenta mudanças nítidas e constantes de humor.

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Esse é um ponto muito importante a se destacar. Homens, especialmente jovens, podem expressar sofrimento psíquico, caso da depressão, de forma diferente das mulheres.

Neles, em vez (ou além) da tristeza profunda e da falta de esperança e de prazer, o problema costuma aflorar como irritação, raiva, comportamento abusivo e controlador e rompantes de violência (em casa ou fora dela).

+ LEIA TAMBÉM: A importância das conexões sociais para a saúde mental

Prevenir é mais seguro que remediar

Acontece que esses sinais são comumente detectados somente a posteriori.

Uma das razões é que não estamos prestando atenção a esses indícios ou os camuflamos sob o manto da desinformação e do preconceito.

E isso tem tudo a ver com as normas sociais conservadoras tradicionalmente consideradas masculinas, como o preceito de ter que dar conta sozinho dos desafios da vida, a exigência de ser sempre um vencedor, a interpretação de insucessos como humilhações e a negação de admitir para si e os outros as fraquezas internas ou que algo não vai bem.

Embora a coisa tenha começado a mudar de figura, ainda é difícil para muitos homens demonstrarem vulnerabilidade e procurarem ajuda psicológica logo que necessário — realidade oposta à das mulheres.

Se mais meninos e homens feitos pudessem pedir apoio e orientação muito antes das situações extremas de impulsividade, hostilidade e destruição, teríamos meios mais eficazes de inibir ações tão drásticas como as que vemos no noticiário.

Além disso, é óbvio que, qualquer que seja a circunstância, é fundamental restringir o acesso a armas, sobretudo as de fogo, que transformam sofrimentos individuais em tragédias coletivas.

Não há dúvida de que episódios de extrema violência têm uma gama de fatores causais, e nem sempre todos eles podem ser evitados.

Ainda assim, existem formas de minimizar ou prevenir os ataques alimentados pelo ódio e pelo sofrimento psíquico.

O primeiro passo é partirmos do pressuposto de que indivíduos não nascem monstros, mas podem trilhar caminhos que levam à destruição e à violência.

As evidências científicas mostram que pessoas perto de cometer atos de extrema violência de massa anunciam, várias vezes explicitamente, suas intenções antes do fato — e não é à toa que o monitoramento das redes sociais virou uma ferramenta para agir antes que isso aconteça.

Não se trata de mera questão policial. Mas também de estender a mão e apoio a pessoas que estão vivenciando um momento de desesperança e, com baixa capacidade de regular as próprias emoções (incluindo a agressividade), externalizam sua dor psicológica contra o mundo e os outros.

É essencial estarmos atentos às comunicações, pessoais e digitais, desses jovens que, acreditando na ideia arraigada de que homens não devem chorar, acabam transformando sentimentos e sofrimentos em ideação suicida ou homicida, amparada numa raiva incontrolável diante da comunidade, das instituições e dos seres humanos.

Precisamos conscientizá-los de que existem outros caminhos, outras opções. Se cuidarmos melhor deles, estaremos cuidando de toda a sociedade.

* Ilana Pinsky é psicóloga clínica e pesquisadora ligada à Fiocruz. É autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto) e foi consultora da OMS e professora da Unifesp e da Universidade Colúmbia (EUA). Hoje também é colunista de VEJA

 

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