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Há muita ciência por trás das refeições. Neste espaço, profissionais da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição destrincham o papel de alimentos, nutrientes e cardápios realmente equilibrados em prol da saúde

O papel dos alimentos transgênicos

Professor esclarece questões como segurança e perspectivas de uso dos produtos geneticamente modificados

Por Prof. Dr. Franco Lajolo* 21 out 2017, 16h24 | Atualizado em 21 fev 2018, 12h01
O que são alimentos geneticamente modificados
Os alimentos transgênicos já estão no mercado. E há motivos para isso (Ilustração: Jonathan Sarmento/SAÚDE é Vital)
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O desenvolvimento de novas matérias-primas alimentares, modificadas geneticamente com o uso de uma tecnologia conhecida como DNA recombinante, constitui uma das facetas mais importantes da moderna biotecnologia. Isso porque oferece a perspectiva de inovações que podem contribuir significativamente para a obtenção de alimentos menos perecíveis, mais saudáveis e mais seguros.

Ainda que não resolva todos os problemas da agricultura e da fome no mundo, é uma ferramenta tecnológica bastante poderosa e precisa, que se soma ao melhoramento convencional de plantas, acelerando esse processo e abrindo novas possibilidades.

Novas tecnologias sempre geram dúvidas e, por isso, não raro despertam desconfianças nos consumidores. Com os alimentos geneticamente modificados, a situação não é diferente.

Contudo, para atenuar a desconfiança, vale esclarecer que há uma preocupação com a segurança das matérias-primas alimentares derivadas dessa tecnologia, preocupação que está presente nas várias etapas de seu desenvolvimento. Isso vai da concepção da ideia de uma nova variedade vegetal modificada até a fase de aprovação para cultivo comercial e liberação para consumo humano pelos organismos responsáveis.

Em essência, todo o trabalho de desenvolvimento desde o laboratório do cientista até a fase de experimentação no campo é feito não apenas para que haja a expressão da nova característica, com a preservação das qualidades agronômicas da variedade de origem, mas, principalmente, para que o produto final se mostre seguro para o ambiente e para o consumidor.

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A nova variedade derivada da modificação genética deve apresentar um nível de segurança similar ao da variedade convencional que lhe deu origem. Para isso, é necessário que os potenciais efeitos nocivos associados ao consumo dessa nova variedade sejam avaliados e as probabilidades de ocorrência sejam estimadas, de modo que o risco oferecido seja aceitável, por ser similar àquele oferecido pela variedade original.

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Assim, os alimentos geneticamente modificados são avaliados segundo o processo internacionalmente estabelecido de análise de risco, que consiste na busca sistemática de informações científicas sobre um determinado efeito adverso, de forma a avaliar o risco envolvido e permitir a adoção de medidas para eliminar ou controlar sua ocorrência.

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Os principais pontos considerados no processo de avaliação da qualidade e segurança de alimentos geneticamente modificados incluem: o organismo objeto da modificação genética, a construção genética ou transgene (gene transferido) envolvido, os produtos da expressão (proteínas) dos novos genes introduzidos, a composição química do organismo resultante, o valor nutricional e o potencial tóxico ou alergênico da nova matéria-prima alimentar.

A aplicação das novas técnicas de edição genética, como CRISPR-Cas-9, será capaz de permitir modificações muito precisas e eficazes no genoma humano ou no de uma planta, sem transferência de um gene de outra espécie. O seu uso poderá simplificar os processos de produção, a avaliação da segurança e mesmo a aceitação pelo consumidor.
Isso poderá ter reflexos também em aspectos normativos, por exemplo no que diz respeito à rotulagem, sendo discutível a adequação da palavra “transgênico” pois, nesse caso, já não há mais uso de genes de uma espécie em outra.

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As premissas básicas são que toda nova tecnologia deve ser exaustivamente avaliada e que os alimentos derivados da modificação genética devem ser tão seguros para a saúde humana e animal quanto os que lhe deram origem.

Levantamentos exaustivos em cima dos estudos nos últimos 25 anos, conduzidos por diversos organismos oficiais e respeitáveis instituições acadêmicas, não relataram efeitos adversos para a saúde humana ou animal. Ao contrário, confirmaram a segurança dos alimentos transgênicos e a adequação da avaliação feita segundo os protocolos oficiais durante o seu desenvolvimento e na sua liberação pelos organismos regulatórios.

No Brasil, os alimentos geneticamente modificados estão sujeitos às resoluções normativas da CTNBio quanto à avaliação da segurança e também quanto à sua aprovação para comercialização. Essa decisão é homologada pelo Conselho Nacional de Bioseguranca, composto de onze ministros. Nos últimos anos foram liberados três cultivos (soja, milho e algodão), incluindo quatro variedades de soja, onze de milho e seis de algodão. No país, estabeleceu-se ainda a obrigatoriedade de inclusão da informação no rótulo dos produtos.

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A primeira geração de organismos geneticamente modificados disponíveis no mercado teve como principal foco a inserção de características para o melhor desempenho no campo, com a transferência de genes que conferem resistência principalmente a insetos e tolerância a herbicidas, aumentando a produtividade. Maior e mais positivo impacto para o consumidor é esperado com a segunda onda de transgênicos, que apresentam melhoria no teor de nutrientes específicos, na composição de componentes bioativos e na conservação pós-colheita.

Os dados obtidos até hoje fazem avançar a certeza de que a engenharia genética, se bem utilizada, tem enorme potencial para aumentar a produtividade agrícola, resguardar o meio ambiente, melhorar a qualidade dos alimentos e trazer benefícios para as pessoas.

* Prof. Dr. Franco Lajolo é professor titular da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, 2º vice-presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN) e um dos autores do livro “Transgênicos: Bases Científicas da Sua Segurança” (EDUSP)

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